Relato de parto: quando a Lua trouxe a nossa Luna

Aproveitei um intervalinho de sono da Luna para redigir o relato de parto que está na minha cabeça há dias. Exatamente 7 dias.

Para este relato não se prolongar tanto, achei melhor escrever apenas sobre o trabalho de parto em si mesmo. Mas para ficar completo, a história começa lá atrás, desde outubro, quando decidi que queria e precisava de uma equipe especial para que meu parto fosse também especial, com respeito, sem stress e que resultasse em uma experiência positiva no geral.
Para isso, escolhi o parto domiciliar planejado. Estudei, li, me informei e conversei muito com oTony sobre isso, que me apoiou totalmente.

A equipe não poderia ser melhor! Tive a sorte e prazer em conhecer e poder contar com a Barbara e a Bruna da Parteria Solidária, por indicação da doula Karen.
Desde o primeiro contato, por email, elas me passaram muita confiança, seriedade e carinho. Quando as conheci pessoalmente, tudo se confirmou. Muito atenciosas, pacientes, objetivas e educadas. Tudo que eu precisava e não encontrei em nenhum atendimento que tive com outros obstetras e profissionais. 

Luna deixou todos nós muito ansiosos. A data prevista do parto era para dia 2 de janeiro, aproximadamente, mas a idade gestacional pelo ultrassom estava diferente da última menstruação, então tivemos esta uma semana de margem. 
Passamos por 2 mudanças de lua e nada de Luna. Até que no dia 16, quase no horário da mudança da Lua (por volta das 21h) comecei a ter pródromos. Estava em casa, tranquila, recebendo a visita da Karen, que passou para me ver e conversar e, sem querer (ou não) trouxe um empurrãozinho ao meu trabalho de parto em forma de boas energias! 

Comecei a sentir as dores e a Karen já seguiu me orientando. Passei a noite acordada monitorando a frequência e duração, para que quando chegasse nos 5 em 5 minutos a gente pudesse avisar as parteiras.
Lá pelas 3h, mandamos mensagens para a equipe, e todas já responderam. A Karen logo chegou em casa e começou a preparar as coisas, além de me acompanhar sempre, me ajudando a lembrar da respiração em cada contração. Fiquei o tempo todo na bola de pilates fazendo os movimentos para ajudar no parto.

Acredito que umas 5h ou 6h - lembro que já estava claro - a Barbara chegou e, um pouco depois, a Bruna. Ainda estava tudo tranquilo, eu conseguia conversar, rir e me distrair entre uma contração e outra. Tony fez café para todas e logo o trabalho de parto começaria de forma mais intensa.
Logo depois a Denise também chegou, irmã do Tony e querida madrinha da Luna.

A partir de agora eu não sei quais foram os horários, pois perdi toda a noção de tempo! Apenas lembro dos momentos.

Decidi ir à piscina inflável na sala, que estava prontinha com água morna. Foi um alívio enorme entrar lá! O trabalho de parto deu uma “paradinha” e as contrações ficaram mais suportáveis. Minha vontade era de dormir ali dentro! 
Não sei quanto tempo fiquei lá e a Barbara sugeriu que fosse melhor eu dar uma andada ou ficar em outras posições para que as contrações voltassem ao ritmo e o trabalho de parto prosseguisse.
OK. Lá fui então dar uma andada em círculos na piscina, ficar de cócoras ou quatro pontos e fazer alguns exercícios com a Karen no rebozo para o colo trabalhar.

Eu já não estava tomando muitas decisões e nem conversando muito. Apenas fazia o que me orientavam. Lembro que a Karen falou que estava super perto de eu conhecer a Luna. Fiquei animada e com mais vontade de me entregar nas contrações e fazer força!

Durante todos estes momentos bebi um monte de água, isotônico, comi bananinha e paçoquinha cremosa. No planejamento do parto, minha vontade e intenção era de tomar um super açaí do Parque das Águas com banana e manga, mas em um domingo de madrugada… né?! Não rolou.

Já estava ficando bem cansada. Entre uma contração e outra eu quase dormia.
Não aceitava mais água quando ofereciam, recusei o floral da Bruna e esses dias, quando fiquei sabendo disso (pois não lembrava) fiquei chateada… Desculpa, Bruna! rs

Então me orientaram a mudar de lugar. Fomos ao quarto da Luna e fiquei apoiada na frente do Tony para encarar as contrações. Barbara e Bruna sempre monitorando os batimentos e olhando para verificar dilatação. Não deu muito certo. Nada de Luna coroar. A dilatação já estava máxima ou quase.
Fomos ao chuveiro e com apoio da bola e do Tony encarei mais algumas contrações, mas também não progredimos. Lembro de ver a Barbara quase com o rosto colado no chão do banheiro com lanterna na mão para ver como estava a dilatação… E nada de Luna.

Fomos para o nosso quarto, na cama. Tentamos duas posições diferentes e foram os momentos mais tensos antes de ela coroar. Eu sentia ela lá embaixo mesmo, quase saindo, mas ela não coroava. Doía muito, mesmo enquanto não passava por contrações, ficando difícil eu me recompor para encarar outra. Estava muito tensa e queria chorar, berrar e falava que não ia conseguir.

A Barbara indicava com o dedo onde eu deveria me concentrar para fazer força, a Bruna me orientava a respirar sem ficar tensa no pescoço e ombros e a Karen falava que sabia que eu ia conseguir, que eu era capaz. Enquanto isso eu apertava com muita força as mãos do Tony e encarava as contrações.

Durante todo este tempo a Barbara fazia o toque para tentar entender o que estava “barrando” a Luna. Ela removeu “algumas coisas” que estavam no colo (não lembro os termos corretos) e aí continuei mais encorajada, pensando “agora vai!”. Mas não ia.

Foi bem tenso. A última tentativa então era “apelar” para a banqueta.
Eu achava que fosse um método comum e até legal para o parto, até que descobri que é considerada uma indução, pela posição que ela força o corpo a ficar.

Fui pra lá, ao lado da nossa cama, num cantinho apertado do quarto, com o Tony sentado atrás de mim para eu me apoiar e encarar contrações. Foi onde mais as parteiras perceberam que progrediu, na banqueta. Eu também senti que lá fluiu melhor. Doeu mais, gritei mais e pensei mais vezes em desistir! Eu não falava que queria desistir ou que queria ir ao hospital, mas estes pensamentos eram apenas o que rondavam a minha cabeça na hora.

Depois de algumas contrações - não faço ideia de quantas ou de quanto tempo isso durou - senti mais dor mas não imaginei que, agora sim, estava super perto, mesmo, de verdade, de eu conhecer a Luna. 

Apenas me lembro de olhar para a frente, em um momento raro em que fiquei de olhos abertos, e enxergar todas elas ali, sentadas no chão de frente pra mim, Bruna bem na minha frente, Barbara, Karen, Denise e a Zelda, nossa cachorrinha. Elas estavam em silêncio, acho que percebi uns sorrisos nos rostos de cada uma. Bruna com uma lanterna na mão e todas as outras com celulares a postos.

Fui entendendo o que significava. Luna coroou! Agora vai. Mesmo! Pra valer!
Tony me deu um abraço e falou que estava chegando, que agora ela ia nascer. Ufa! Então nem tinha muito tempo de pensar, já tinha uma contração chegando e era hora de encarar com tudo.
Karen disse que estava vendo cabelinhos castanhos. Então lá fui me entregar mais uma vez!

Doeu mais ainda, senti tudo muito quente e era a cabeça dela saindo.
Estava exausta mas ainda com energia e vontade de fazer força, até que me falaram “agora não faça mais força, Eve, apenas respira e deixa o corpo trabalhar”.
Q?!?! Nossa! Aí eu fiz escândalo… “não consigoooo não fazer forçaaaaa”, “aaaah eu tô fazendo forçaaaaa”, “hmmmzsssnindfmsidnianfi” (sons que falaram que eu fiz nessa hora)…
Que momento! Luna fazia o trabalho sozinha mas eu não conseguia “relaxar”, parecia que tinha que fazer força ou contrair pra segurar… Enfim. Todos em silêncio, só eu berrando, até que senti tudo queimando mesmo, muito quente e consegui sentir todo o corpinho dela saindo. Berrei como nunca. Vizinhos devem ter pensado mil coisas!

E passou! Quando olhei para baixo e vi a Luna, roxinha e coberta de sangue, mesmo assim, que alívio! Não me preocupei ou me assustei. Sabia que estava tudo bem, acreditava e confiava em mim mesma, nela e na equipe que estava tudo bem. E estava!

O sangue todo era da placenta. Pelo que eu entendi, o que aconteceu que fez tudo mais demorado e complicadinho, foi que a Luna estava como um io-iô. O cordão umbilical enrolou nela, com duas - pra quê uma só né?! - voltas no pescoço e uma no braço. Durante o expulsivo, o cordão puxava a placenta e ela voltava um pouquinho, demorando para coroar.

A Bruna a pegou logo que nasceu, a desenrolou, examinou e já me passou para meu colo. Não lembro se chorei, se sorri, acho que fiquei sem reação. Só sentia alívio. Toda dor e cansaço sumiram! Acho que vi a madrinha emocionada, Tony muito emocionado também, me abraçando por trás e a Zeldinha curiosa querendo chegar perto pra ver o que aconteceu.

Logo as parteiras me pediram para ir à cama. Eu precisava de ocitocina, pois estava sangrando bastante. Deitei com a Luna no meu colo, que logo fez cocô em cima de mim. 
Enquanto a Barbara me medicava, a Bruna me limpava. Acho que ela estava tão cheia de sangue quanto eu, e ficou lá passando paninho em mim… rs

Eu não conseguia enxergar a Luna ainda, ela ficou no meu peito, abaixo do queixo e não consegui enxergá-la. Mas apenas senti-la, quentinha em cima de mim, já estava ótimo! Que sensação incrível! Tony olhava, mexia com ela. Estava tudo perfeito.

Logo consegui me arrumar melhor na cama e admirar a Luna. Ela mamou e ficou olhando pra mim. 

Enquanto isso, Tony perguntou se podia avisar aThaís e minhas amigas, que já estavam desesperadas querendo notícias. Falei que sim, mas para falar que só faltava a placenta sair… me preocupei muito com isso, pois lembrava que só poderíamos afirmar que o bebê nasceu depois que a placenta também nascesse.

Placenta nasceu! O cordão já havia parado de pulsar faz tempo. Tudo certo.
Liguei para meus pais, que nem sabiam que eu estava em trabalho de parto - mas imaginavam, já que eu havia sumido durante o dia todo e chamei para virem conhecê-la.

Aí passei por alguns procedimentos, precisei passar por uma sutura, e lá vou eu passar por mais um pouco de dor! Mas aí, já suportava melhor… 

E assim foi o parto da Luna, que nasceu com 49 cm e 3,615 kg às 16h40, apgar 9/10.
Tony cortou o cordão umbilical e a Karen fez o carimbo da placenta.

Que aventura! Um dia inesquecível e incrível. Depois, enquanto conversávamos, elas contaram como foi e tudo que havia acontecido. 
Eu achava que não havia “problemas” no decorrer do parto, acreditava que ele não progredia porque eu não estava fazendo alguma coisa direito. 
Mas foi algo além do que eu poderia fazer. Ainda bem que a equipe foi paciente e acreditou em mim e na Luna! Persistimos e correu tudo bem! Sensação maravilhosa de poder. 
Eu sei parir e pari, Luna sabia nascer e nasceu. A natureza fez tudo perfeito, simplesmente. 
Com orgulho, pari como um animal, sim. Sem anestesia, sem pessoas desconhecidas por perto, longe da sala branca, verde e fria do hospital, sem induções desnecessárias e estímulos artificiais. 

A melhor decisão que tomei, durante o pré-natal, foi com certeza a escolha da equipe. Tenho arrepios de imaginar como seria se acabasse encarando um plantão no hospital, que era o que eu cogitava fazer até o 6º mês, praticamente. 
Uma equipe maravilhosa que acredita na mulher e que a orienta com muita clareza, conhecimento e carinho. 
Muito obrigada por tudo, Barbara e Bruna! Vocês são admiráveis! É clara a vocação de vocês e é encantador ver como trabalham.
Karen, sempre atenciosa e especial, desde o primeiro contato já me senti muito íntima de você, fiquei à vontade e confiei totalmente. Cheguei até aqui porque te ouvi e segui suas dicas. Obrigada pelo carinho, pela força e encorajamento. Admiro muito você como doula e como pessoa!
Dê, madrinha querida, obrigada pela companhia e apoio durante toda a gestação e mais ainda no dia do parto. Você já é e sempre será muito especial para a Luninha!
E Tony, agora oficialmente papai, obrigada por ser o melhor companheiro de vida! Nossa guerreirinha-anjinho é fruto de muito amor, carinho e amizade que só cresce a cada dia. Amo vocês demais! 

Espero que este relato sirva para fortalecer um pouco mais o empoderamento das mulheres, a importância da informação verdadeira e real sobre o nosso corpo, o auto conhecimento e as diversas possibilidades.
Desde que engravidei tenho tomado atitudes diferentes e feito ações novas, enxergando com outros olhos, pensando e agindo de outra forma.

Não há apenas uma verdade, o certo e o errado. Cada um sabe pra si o que é melhor, mas para isso, é preciso se conhecer, estudar, entender, se informar e acreditar.

Aprendi e aprendo mais a cada dia a ser assim e é isso que desejo e estou passando para a Luna, desde seus primeiros meses de vida, ainda dentro de mim.
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“Digo mais: parir é, também, um ato político. O sistema tem que ser combatido. A mulher é a protagonista do parto. Não o médico, nunca o médico. A cesariana é incrível e, quando necessária, salva vidas. Mas vivemos em um país onde 80% dos partos da rede particular são cesarianas. 80% quando a Organização Mundial da Saúde recomenda que no máximo 15% o sejam. O sistema vigente mata mães e bebês. O sistema impele mulheres a fugirem do parto que, respeitoso e humanizado, foi o momento mais poderoso e lindo da minha vida.
Ser mãe me impede de fechar os olhos para tanto dinheirismo, machismo e preconceitos em geral. Esse mundo é do meu Yuri agora e nele não pode existir lugar para o ponto de contato de tudo isso: o ódio. Nele não existe lugar para negar o que parir me ensinou:
ser mulher é político."

_ fonte: vilamamifera.com/cafemae/parir-e-politico