Casa da Dona Bia

Dia desses tive a oportunidade de colaborar fotografando para uma revista da Abril, e mais empolgante que isto, foi a oportunidade de conhecer a história da pessoa entrevistada em questão.

Antes de ir até a casa dela, a dona Beatriz, fiquei sabendo o porquê a história dela merecia uma entrevista de 3 páginas:
ela construiu sua casa com as próprias mãos.

A partir daí já fiquei admirada. Quando a conheci, mais ainda!
Fui até lá, a tal casa erguida e assentada pela dona Bia, num domingo à tarde para fotografá-la e também "tirar foto das fotos" que ela mantém guardadas há quase duas décadas.

Ela estava sentada na área da frente, em uma mesinha com um vaso de flor, fazendo anotações e me esperando. Muito simpática, calma, sorridente e comunicativa, nos recebeu super bem, estava com o Tony, meu namorado, e a encontrei com o Luiz, seu filho e uma cachorrinha saltitante.

Fiquei impressionada em ver que ela tinha tantos registros de toda a vida dela, desde que decidiu construir sua casa. Álbuns e mais álbuns com fotos de todas as etapas da obra, dos detalhes que evidenciam o capricho com que ela construiu da fundação ao acabamento, e sempre registrando também seu filho, desde pequeno, brincando e ajudando na obra.

Ela ia nos mostrando as fotos e contando. Esse é o jeito mais legal de contar histórias, mostrando fotografias, ainda mais as antigas, que tem cores, tons e aspectos que promovem uma viagem ao passado instantaneamente, mesmo se não estávamos lá.
E ela contava, explicava, com muita vontade e carinho. Às vezes interrompia para oferecer um copo de água e perguntar "como é o seu nome mesmo? Desculpa, esqueci..." ─ interrompo aqui também para notar que nos créditos da revista, meu nome está Evelise; eis um assunto que me rende inúmeras histórias, que ficam para um próximo post.

Ficamos por lá durante quase duas horas, ouvindo tudo, "tirando foto da foto", fotografando alguns locais da casa, fazendo retratos dela e conhecendo melhor a dona Bia. E mesmo assim, quando li a entrevista na revista publicada, tomei conhecimento de novas informações, que só me fizeram admirá-la mais ainda.

Ela é guerreira, com todas as letras. Órfã, sem ninguém enquanto criança, não parou em nenhum orfanato, passou fome e não usufruiu de uma infância digna. 
Anos depois, se casou e divorciou. Teve um novo caso com um homem, que na verdade já tinha uma família. Engravidou por um descuido e ouviu dele que deveria abortar.
Foi aí que a vida da dona Bia começou a mudar e progredir. Quanto mais dificuldades, mais garra e vontade ela encontrou para sobreviver e construir, literalmente, uma vida digna para ela e seu filho.

Enquanto celebrou a conquista de participar de um curso gratuito de pedreiro, também se desanimou por ter vivido momentos extremos de comportamento machista, ouvindo que lugar de mulher era na cozinha... 
Nunca desistiu. Sonho atrás de sonho, tijolo por tijolo, após 17 anos, ela finalmente conquistou o que mais desejou: sua casa pronta e seu filho na faculdade... de engenharia, é claro, inspirado nela.

Uma história incrível e inspiradora! Talvez a dona Bia não saiba, mas sempre me lembro dela.
E talvez ela não tenha ideia, mas esta longa batalha que ela conquistou, serve de exemplo para muitas pessoas.

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Nas fotos abaixo, a matéria na íntegra: